domingo, 19 de maio de 2013

Tales, a água como princípio de tudo, e a tolice infinda dos néscios




Stella Galvão

"Qual é a causa última, o princípio supremo de todas as coisas?"
"A água é o princípio de todas as coisas", respondeu Tales de Mileto (640-558 a.C) à pergunta por ele formulada, no período que inaugurou a prática filosófica na Grécia Antiga. Foi ele
o primeiro teórico a formular um pensamento fundado em bases racionais e, por essa razão, é considerado o primeiro filósofo da história ocidental, inaugurando a linhagem filosófica dos pré-socráticos (que precederam Sócrates).

Tales teorizou primariamente sobre os três estados em que vemos os corpos na natureza (phisys): líquido, gasoso e sólido. Considerava o filósofo que a água equivalia a uma divindade, pois dela tudo nascia - as plantas, os peixes. Quando densa, se transmutaria em terra; quando aquecida, viraria vapor que, ao se resfriar, retornaria ao estado líquido, garantindo assim a continuidade do ciclo. Nesse eterno movimento, aos poucos novas formas de vida e evolução iriam se desenvolvendo, originando todas as coisas existentes.

Assim falou Tales, o filósofo original, segundo Aristóteles, discípulo de Platão, por sua vez seguidor e escriba do pensamento socrático. Gigantes do pensamento, artífices do livre pensar, doutores na arte de propor o inimaginável, aquele terreno intangível e instável que equilibra solidamente o edifício filosófico, determinante e decisivo para a experiência humana de buscar continuamente respostas para o existir.

Corte abrupto para uma sala de aula de ensino universitário, turma de um curso de Comunicação umbilicalmente ligado à criatividade, ao livre pensar, à proposição de algo novo em meio ao esgotamento das fórmulas tradicionais. Turma mais ruidosa que a média do ruído produzido cronicamente nos ambientes de ensino. A professora, imersa no universo aquoso proposto por Tales de Mileto há mais de cinco mil anos, referia as mudanças de estados líquido a sólido e gasosa como metáfora do mundo. Súbito, a pergunta acintosamente estúpida e agressivamente desrespeitosa: “Professora, você bebeu o que antes dessa aula?”

O néscio que a formulara, um homem maduro e já inserido no mercado de trabalho, traía naquele momento a urgência de se fazer jovial, impertinente e partícipe da geração dos muito novos. Mostrava ainda, de um modo explícito, a incapacidade da abstração, a impossibilidade de dialogar com esferas do conhecimento que se amparam na formulação de ideias incomuns, inovadoras, improváveis.

Este, o cenário com que diariamente se defrontam professores universitários, até não muito tempo atrás uma profissão de sonho. Recentemente, o site americano CareerCast.com listou, como faz anualmente, a lista com as profissões mais e menos estressantes. No ranking de 2013, coube a pecha de carreira menos vulnerável ao estresse justamente a de professor universitário. Salvaguardadas as diferenças da realidade norte-americana para a brasileira, trata-se de um mito que vem se esvaziando progressivamente.

Escolher ser professor e compartilhar conhecimentos sempre exigiu disposição e dedicação. Hoje, exige mais, muito mais. Requer uma pitada de malabarismo e histrionismo, uma dose de resiliência descomunal para lidar com a agressividade e desinteresse crescente dos alunos escravizados pelas redes sociais digitais. Sim, ensinar tem se tornado cada vez mais difícil, desgastante e estressante.

 Pérolas atribuídas ao filósofo Tales de Mileto:
“Procure sempre uma ocupação; quando o tiver não pense em outra coisa além de procurar fazê-lo bem feito.”
“A coisa mais difícil é conhecermos a nós mesmos. A mais fácil é falar mal dos demais”
“Muitas palavras não indicam necessariamente sabedoria.”

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Uma bela carta de humano para felinos

A Montanha do Gato Sagrado_Paul Klee

"Queridos Nuggi, Fritzy e Bimbo:    

Chegado ao fim da minha vida, dirijo-vos esta carta para vos dar conta da importância que tiveram no meu atribulado percurso como pintor. Creio que não teria chegado onde cheguei como artista do meu tempo sem o vosso amor e a inspiração que nunca me regatearam.                    

Fiz questão de vos manter presentes em tudo quanto fiz, desde as cartas aos poemas, passando, naturalmente, pelos quadros em que tentei modestamente representar-vos. Vocês acompanharam-me nas horas de sofrimento e incerteza, de exílio e de privação, mas também naquelas que me deram a ilusão da felicidade. Primeiro o meu querido Nuggi, cinzento e meigo, ainda nos anos da juventude; depois, Fritzy, tigrado, brincalhão e matreiro a que também chamei Fripouille, nos tempos mais intensos da criação pictórica e também do reconhecimento artístico pelo público e pela crítica; por fim, Bimbo, branco e discreto, já nos anos da doença e da decadência física, sempre dedicado, sempre presente, sempre terno e atento.       

Devo confessar que sempre vislumbrei em vós um toque do sagrado, porque não hesito em considerar-vos seres divinos, que eu não fui capaz de retratar com o talento nas telas e nos desenhos em que vos tentei eternizar. Sim, é verdade que vos escrevi cartas, sobretudo a Bimbo, já no fim da vida, e que não tinha sossego nos meus telefonemas sempre que me diziam que algum de vocês estava doente ou andava fugido. Isso nunca foi uma fraqueza minha e sim uma das principais manifestações do amor que consegui compartilhar com outros seres.       

Ainda assim, alguns dos quadros de que mais gosto são precisamente aqueles em que vos reservei lugar, com títulos como ‘O Gato e o Pássaro’ ou ‘A Montanha do Gato Sagrado’. Os gatos ajudaram também a fortalecer amizades com artistas e poetas que comungavam comigo esse amor e essa admiração irrenunciáveis. Foi o que aconteceu com Rainer Maria Rilke. Até isso eu vos fiquei a dever, tributo reservado a um pintor que tentou estar sempre à altura da vossa ternura e infinita capacidade de dádiva.

Agora que estou de partida, levo comigo a recordação do que vocês foram para mim e a convicção de que não teria sido o que fui, nem teria chegado onde cheguei, sem o vosso amparo e dedicação. No meu íntimo, sei que voltaremos a encontrar-nos, porque não pode acabar no perecível mundo material e terreno um amor como o nosso.           

Eternamente vosso    

PAUL KLEE"           

(in Amados Gatos, de José Jorge Letria-Oficina do Livro)

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Um Pierrô reduzido a cinzas

'Pierrô', 1918, Pablo' Picasso
Era vez um Pierrô que saltitou por dias e noites ouvindo toda sorte de porcaria musical. Fingia alegria em busca do trio formado com o Arlequim e a Colombina, mas não havia nem sombra destes dois, igualmente sugados pelo caldeirão da mesmice de fantasias carente de adereços mais vívidos. Saudades dos tempos idos da Comédia dell'Arte, teatro italiano do século XVI, quando o trio despontou, espalhando sua alegria e harmonia pelos quatro cantos do mundo, mas foi somente no século XIX,  sob a influência do romantismo francês, que ganhou popularidade. A trama digna de uma quarta-feira de cinzas: o sofrimento de Pierrô, caído de amores por Colombina, que dá de ombros, sedenta de emoções fartas com outros e com Arlequim, que vence Pierrô, essa feliz e triste representação dos amores que vão para o ralo na quarta, quinta, sexta....

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Contar histórias, nova onda



Pubs londrinos viraram palco para pessoas anônimas encantarem outras com suas histórias extraídas da vida como ela é. O ritual mensal, batizado de True Stories Told Live (Histórias Verdadeiras Contadas ao Vivo), tem regras:  as histórias devem ser contadas sem uso de anotações, ou seja, de cabeça. Não podem durar mais que dez minutos. Cinco histórias são contadas em cada evento.


A plateia não paga um centavo além da bebida consumida. Quem quiser ser admitido precisa colocar seu nome em uma lista. Como há mais inscritos do que o espaço é capaz de acomodar, os organizadores fazem uma triagem dos nomes. Há quem tente explicar a nova moda como uma reação à presença excessiva das tecnologias que mediam as interações humanas hoje em dia.

Para os organizadores do evento, no entanto, seu sucesso tem uma explicação simples: ninguém resiste ao poder de uma história bem contada. Pessoas como o jornalista David Hepworth, editor da revista The Word. Ele levou para a capital inglesa um evento que acontece em Nova York, batizado de The Moth, onde pessoas se reúnem para contar e ouvir histórias.

O primeiro evento inglês aconteceu há dois anos. Hoje, a lista de contatos do True Stories Told Live já conta com cerca de dois mil nomes. E além de Londres, outras cidades britânicas estão aderindo à novidade.
Hepworth acha que a atração da noite reside em um princípio muito simples. "Histórias são a forma mais poderosa de entretenimento que existe".

E o contador da história, o que ganha com a experiência? "O típico contador faz isso como um teste: 'Será que consigo?'", disse Hepworth. "No final, fica eufórico por ter vencido o desafio". Mas também há histórias medonhas que funcionam como uma espécie de terapia: "Como vou dizer isso na frente de um monte de gente'. É um frio na barriga, é como atuar num palco".

O próximo evento, em novembro, será transmitido pela rádio do Serviço Mundial da BBC, que forneceu estas informações.

domingo, 9 de outubro de 2011

Um homem gentil


Só sabia que ele pedalava quase todas as noites
Quando ele a convidou para um drink, pensou que seria mais um encontro previsível
Ele mal a viu passar e já chamou por ela com aquela voz firme e cristalina
Repetiu noite adentro o nome, como ela aliás adorava que fizessem
O nome era um fake_ela toda ressabiada não queria expor-se à visitação
A bruscheta  era maravilhosa, o vinho idem, o uísque, o café, a companhia

Ele era dotado daquele olhar perscrutador, um par verde cravado na interlocutora
Falava de azeites, temperos, vinhos, cinema, música, viagens, bikes, filhos
Todo gentil, se desdobrava para agradar à moça, puxando a cadeira,
abrindo mão de vários acepipes para que ela os degustasse com prazer.
Tomou as micromãos dela em suas manoplas e sugeriu que circulassem.

Cuidava de se colocar à frente para ela não correr de tropeçar e cair e soçobrar

Correu para abrir a porta do carro para ela, quis saber se a música agradava.
Ela não resistiu a tanto primor e gentileza e deixou-se conduzir, quase em transe.
Então, os beijos cálidos a deixaram inerte, completamente desprovida de saliva.
Então ele correu a buscar uma provisão de água de côco para a formosa dama.
Ok, cavalheiro, corra agora antes que as doze badaladas soem e o encanto se desfaça.
Ela, em estado de quase transfiguração, julgou inevitável parodiar o poeta:
Ah, se todos fossem iguais a você, que delícia enveredar pelas alamedas do afeto!

domingo, 25 de setembro de 2011

Os patins que não calcei

Carlitos pronto pra se jogar no mundo sobre rodas. 

Uma adolescência sem patins pode transtornar a vida de uma mulher:
Quantos volteios não a teriam tornado mais bamboleante?
Quantas lesões não a tornariam mais atenta às armadilhas da existência?
Quantos machucados não teriam encorpado uma história relatada pelas cicatrizes?
Tantas coreografias ficaram presas no quarto da imaginação.
Tantos rostos toscos de adolescentes débeis e felizes com seu par.
Houve dias em que quase incorporou a sanha de Carrie, a estranha.
Mas sobreviveu à base de tombos em veículos de duas rodas.
Empacotou sua frustração em papel laminado e correu para o mundo.
Hoje tomba nas pistas de gelo do país tropical, presa à falta de intimidade com as quatro rodas...nos pés

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Um herói mitológico e seu martelo


Meu herói predileto nos quadrinhos era Thor, o Deus do Trovão. Thor e sua cabeleira loura indômita, seu poderoso martelo que martelava a cabeça dos adversários e os reduzia a pedregulhos. Thor era lindo, viril, íntegro, bom de briga. Uma "coisa" mesmo. Filho de Odin., dono do martelo de pedra Mijollnir, Thor era invocado na mitologia dos países nórdicos (norte da Europa) como uma força vingadora.

Força da natureza no paganismo germânico, surgido no período medieve - séculos V a XV. Já no século XIX, é representado nas óperas alemãs de forma distanciada da iconografia do medievo. Sua armadura lembra a de um soldado romano nos gloriosos tempos de Júlio Cesar e seu elmo com asas é influenciado pelas fantasias dos anos oitocentos.

Neste 2011, Thor apareceu na telona em filme dirigido pelo ator britânico Kenneth Branagh. a história reproduz a mitologia nórdica: o homem do martelo está prestes a receber o comando do seu pai Odin, vivido com pompa e circunstância pelo ator britânico Anthony Hopkins, quando forças inimigas quebram um acordo de paz.Thor apela para o martelo e desafia o pai ao deflagrar uma guerra entre reinos. Odin retira os poderes do filho e o expulsa para a Terra. É lá que Thor será ajudado por mortais a recuperar seu martelo. Idas e vindas, batalhas e seus desdobramentos marcam a trama. No final, Thor se livra de tudo que atrapalha, recorre a um novo fluido capilar, usa o martelo em toda a sua potência, reconquista o pai, a amada, o espelho de Narciso.

Eu não vi, mas jurava outro dia que havia sonhado com o martelo de pedra do deus do Trovão dia desses..