domingo, 9 de outubro de 2011
Um homem gentil
Só sabia que ele pedalava quase todas as noites
Quando ele a convidou para um drink, pensou que seria mais um encontro previsível
Ele mal a viu passar e já chamou por ela com aquela voz firme e cristalina
Repetiu noite adentro o nome, como ela aliás adorava que fizessem
O nome era um fake_ela toda ressabiada não queria expor-se à visitação
A bruscheta era maravilhosa, o vinho idem, o uísque, o café, a companhia
Ele era dotado daquele olhar perscrutador, um par verde cravado na interlocutora
Falava de azeites, temperos, vinhos, cinema, música, viagens, bikes, filhos
Todo gentil, se desdobrava para agradar à moça, puxando a cadeira,
abrindo mão de vários acepipes para que ela os degustasse com prazer.
Tomou as micromãos dela em suas manoplas e sugeriu que circulassem.
Cuidava de se colocar à frente para ela não correr de tropeçar e cair e soçobrar
Correu para abrir a porta do carro para ela, quis saber se a música agradava.
Ela não resistiu a tanto primor e gentileza e deixou-se conduzir, quase em transe.
Então, os beijos cálidos a deixaram inerte, completamente desprovida de saliva.
Então ele correu a buscar uma provisão de água de côco para a formosa dama.
Ok, cavalheiro, corra agora antes que as doze badaladas soem e o encanto se desfaça.
Ela, em estado de quase transfiguração, julgou inevitável parodiar o poeta:
Ah, se todos fossem iguais a você, que delícia enveredar pelas alamedas do afeto!
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